terça-feira, 5 de agosto de 2025

 

Alentejo queimado

 

do vermelho nasce o verão

e do dourado se fazia o pão

 

e nas cores do arco-íris

sempre viverá

a alma de um povo

habituado aos sentires

do que já não é novo

porque lhe amputaram o coração

hoje vive reveses

ingrata ilusão

 

do vermelho nasce o sedimento

e a terra prometida era o alento

 

hoje árida e espinhosa sem labor

e o desalentado e amargo alentejano

habituado à entrega ao infinito

sempre mudo e resistente à dor

assentou na vida o requisito

designado desde o seu advento

suportar com estoicidade o sofrimento

 

do vermelho se fez breu

e a alegria desapareceu

 

na terra a que se cingiu com altivez

onde os pés criaram crostas

de seu já não tem nada

hoje vive uma doce embriaguez

e o olhar é sinfonia terminada

o solo bendito que em si cresceu

deixou de produzir

e o pão já não é seu

 

e na altivez dos campos perfumados

divisa-se ao longe no montado



uma alma errando eternamente

num caminhar louco e desenfreado

os trilhos que pisara num tempo persistente

já não lhe pertencem foram-lhe usurpados

 

do vermelho que a terra pariu

é  hoje eterno “Alentejo queimado”

 

 Ana Claré 21/Junho/2011




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