sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Alentejo queimado


Do vermelho nasce o verão,

E do dourado se fazia o pão.



E nas cores do arco-íris,

Sempre viverá a alma,

A alma de um povo,

Habituado aos sentires,

Do que já não é novo.



Porque lhe amputaram o coração,

Hoje vive reveses… ingrata ilusão.



Do vermelho nasce o sedimento,

E a terra prometida era o alento.



Hoje árida e espinhosa sem labor,

E o desalentado e amargo alentejano,

Habituado à entrega ao infinito,

Sempre mudo e resistente à dor,

Assentou na vida o requisito.



Resignado desde o seu advento…

Suporta com estoicidade o sofrimento.



Do vermelho se fez breu,

E a alegria desapareceu.



Na terra a que se cingiu com altivez,

Onde os pés criaram crostas,

De seu já não tem nada,

Hoje vive uma doce embriaguez,

E o olhar é sinfonia terminada.



O solo bendito que em si cresceu,

Deixou de produzir…E o pão já não é seu.



E na altivez dos campos perfumados,

Divisa-se ao longe no montado,

Uma alma penada errando eternamente,

Num caminhar louco e desenfreado,

Os trilhos que pisara num tempo resistente,

Já não lhe pertencem… Foram-lhe usurpados.





E a imensidão da planície exótica e de chão lavrado,

Tornou-se beleza infinda de gentes nunca vistas,

E a terra que pariu! É no verão agreste…

  Alentejo queimado.



Ana Claré 21/Junho/2011

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O pastor


Solitário,

O silêncio sua lida,

Ele é pastor do seu gado

E da sua própria vida.

Guarda de seres,

Guarda de almas,

Olhar distante,

Caminhar lento, absorto,

O que quer já é bastante,

Não desprezar sua vida

Solitária e breve,

Os seres que guarda

Com genuíno alento

E seguir sempre com um rumo certo.

No silêncio da paisagem

Em que vive e sofre,

É o elo entre céu e terra,

Não conta horas,

Não conta momentos,

Vê mudar os campos, seu sustento!

Nas viragens normais que faz o tempo.

Perscrutando tudo que abarca,

Seu caminho é o infinito,

Do longe faz perto

E nunca se perde,

No espaço e no tempo

De que ele próprio é feito.

Ao seu redor o feio não existe,

A natureza embelezou-lhe a sorte,

Os seus protegidos

Aumentam-lhe o viço,

Libertam-no da sua própria morte

Porque a beleza é o seu ofício.



Ana Claré 29/Outubro/2010

O Sobreiro

No meio da planície triste e só,
Abandonado à sua triste sorte,
Existe ainda na sua altivez,
Um enorme sobreiro lindo e forte,
Ergue os braços ao céu como num grito,
Em desabafo de orgulho mal ferido,
Num diálogo de surdos vai pedindo,
Em oração, luz e piedade,
Que muito tarde chegue a sua morte.
*
Olha do alto da sua beleza,
O esplendor que é o Alentejo,
Rogando que nos dias de incerteza,
A sua sombra ainda seja um tecto,
Um abrigo de almas e ansiedades,
Dos temporais, da vida e dos tempos,
Para quem vive só, é o exemplo,
De força sublime, de vontade,
Que mesmo no meio da solidão,
Ele quer viver! É o mais forte.

Ana Claré