Do vermelho nasce o verão,
E do dourado se fazia o pão.
E nas cores do arco-íris,
Sempre viverá a alma,
A alma de um povo,
Habituado aos sentires,
Do que já não é novo.
Porque lhe amputaram o coração,
Hoje vive reveses… ingrata ilusão.
Do vermelho nasce o sedimento,
E a terra prometida era o alento.
Hoje árida e espinhosa sem labor,
E o desalentado e amargo alentejano,
Habituado à entrega ao infinito,
Sempre mudo e resistente à dor,
Assentou na vida o requisito.
Resignado desde o seu advento…
Suporta com estoicidade o sofrimento.
Do vermelho se fez breu,
E a alegria desapareceu.
Na terra a que se cingiu com altivez,
Onde os pés criaram crostas,
De seu já não tem nada,
Hoje vive uma doce embriaguez,
E o olhar é sinfonia terminada.
O solo bendito que em si cresceu,
Deixou de produzir…E o pão já não é seu.
E na altivez dos campos perfumados,
Divisa-se ao longe no montado,
Uma alma penada errando eternamente,
Num caminhar louco e desenfreado,
Os trilhos que pisara num tempo resistente,
Já não lhe pertencem… Foram-lhe usurpados.
E a imensidão da planície exótica e de chão lavrado,
Tornou-se beleza infinda de gentes nunca vistas,
E a terra que pariu! ‒ É no verão agreste…
‒ Alentejo queimado.
Ana Claré 21/Junho/2011

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