terça-feira, 5 de agosto de 2025

 

Alentejo queimado

 

do vermelho nasce o verão

e do dourado se fazia o pão

 

e nas cores do arco-íris

sempre viverá

a alma de um povo

habituado aos sentires

do que já não é novo

porque lhe amputaram o coração

hoje vive reveses

ingrata ilusão

 

do vermelho nasce o sedimento

e a terra prometida era o alento

 

hoje árida e espinhosa sem labor

e o desalentado e amargo alentejano

habituado à entrega ao infinito

sempre mudo e resistente à dor

assentou na vida o requisito

designado desde o seu advento

suportar com estoicidade o sofrimento

 

do vermelho se fez breu

e a alegria desapareceu

 

na terra a que se cingiu com altivez

onde os pés criaram crostas

de seu já não tem nada

hoje vive uma doce embriaguez

e o olhar é sinfonia terminada

o solo bendito que em si cresceu

deixou de produzir

e o pão já não é seu

 

e na altivez dos campos perfumados

divisa-se ao longe no montado



uma alma errando eternamente

num caminhar louco e desenfreado

os trilhos que pisara num tempo persistente

já não lhe pertencem foram-lhe usurpados

 

do vermelho que a terra pariu

é  hoje eterno “Alentejo queimado”

 

 Ana Claré 21/Junho/2011




 

Alentejo minha loucura

 

quando o trigo

compacto

alagava a planície

no seu dourado

salpicado de papoulas

 

o Alentejo

era pão

era vigor

 

mãos que acarinhavam

a farinha

amassando

o pão

que alimentava a vida

 

o Alentejo

era fervor

era alvoroço

 

hoje a planície

sumida na lonjura

é cor

é abandono

é latejar de um sonho

 

o Alentejo

é perfeição

é quebranto

 

nela desvendo o encanto

das flores

que enchem os campos

 

e o amor em mim

é a loucura

 

 

Ana claré 23/Abril/2013

 

A velha Oliveira

 

Perdida no meio da planície

Com teu ar tutelar e sobranceiro

Dominas a paisagem que te agride

Fazes inveja a um qualquer sobreiro

 

Séculos e vendavais por ti passaram

Deste abrigo a muita alma faminta

Foste o sonho dos que te plantaram

És a musa de um braço que te pinta

 

Dentro de ti guardas as memórias

Dos que por ti passaram devagar

Só tu sabes contar a sua história

E o que sofreram para te alcançar

 

Dedos enregelados te afagaram

De ti colheram os frutos do teu corpo

Foram almas que sofreram e que amaram

Recolhidas em silêncio no seu horto

 

Escravos da sorte e da incerteza

Almas que te regaram com seu pranto

Que iluminaste na sua pobreza

A quem alimentaste em qualquer canto

 

Ana Claré 31/03/2013

 

Não acredito

 

não acredito

em falsas aparências astutas

em vielas rasgadas e corruptas

em rolos de fumaça que se espraiam

em risos esgotados que desmaiam

 

não acredito

em palavras dissipadas em mutismos

em sonhos já vividos e esquecidos

em abraços prenhes de vileza

em prazer mascarado de tristeza

 

não acredito

porque a vida atulhou-me de incertezas

dói o coração cheio de ansiedade

do sonho acordei a realidade

e no que confiava perpétuo e sublime

esvaiu-se no tempo como lume

 

e o mote dos meus versos já esgotados

é um mar de escolhos estropiado

e o meu grito de raiva e desacerto

é apenas um

 

não acredito

 

 

Ana Claré 10/Abril/2014

 

Mulher

és mulher

de minutos abrasados

ou extintos

de horas turbulentas

ou pacatas

de dias eternos

ou vorazes

és mulher vulcão

de lava incandescente

és mulher cinza

extinta no tempo

és mulher clamor

ou reservada

mulher que sofre

ou é realizada

mulher amada

ou desalentada

sei que és mulher

de minutos

horas

dias

e sei que

és mulher todos os dias

 

Ana Claré

 

Mulher lava

 

mulher que lavas

porque vais lavar

lavas a poeira

lavas o olhar

desfias as mágoas

em ti encerradas

em vidas vazias

sedentas de nada

 

lava mulher - lava

 

lavas as tormentas

misturas lágrimas

nas águas impuras

plenas de mágoas

esse teu lavar

tem graça que encanta

 

lava mulher - lava

 

lava o pranto e a dor

deixa-te lavar

pelo mar do amor

teu corpo curvado

de beleza infinda

faz lembrar um quadro

pintado pela vida

imagem de santa

ou de meretriz

 

lava mulher - lava

o resto de ti

 

Ana Claré - 2010

 

Meu corpo por ti estremeceu

 

 

senti tuas mãos nos meus cabelos

olhei esse teu sorriso meigo

a vida renasceu

 

mãos esguias

rolando de mansinho

num afagar que emudeceu

 

gestos esboçados

numa languidez inopinada

que meu coração enfraqueceu

 

mulher

menina

moça

um tempo que brilhou

mas não esqueceu

 

e em ritmo cadente

amor ardente

meu corpo por ti estremeceu

 

 

 

Ana Claré 21/Abril/2013